Nasci na véspera de um feriado, a 14 de agosto, quando o verão já cheira a uva e no dia seguinte o Sol se apresenta com a sua melhor indumentária. Gosto de pensar que cheguei ao mundo entre música, canções, cachos de uva e a voz vestida de festa da minha mãe.
Vivo numa povoação com castelo, lendas e histórias. Em pequena, ouvia as que me contavam os meus avós. A minha avó falava, e eu, sem me mexer de junto dela, viajava até tempos antigos que para mim eram sempre novos. Viajava também ao ritmo das teclas da máquina de escrever do meu avô, perguntando-me quantas histórias caberiam dentro daquelas pancadinhas. Tac, tac, tac. Era como se alguém me chamasse de muito longe para me trazer contos e poemas.
Não sei o que terão alguns sons, mas há lembranças que ficam a viver neles… Talvez por isso me agrade tanto procurar o que o tempo vai deixando para trás, o que hoje vive na memória. Talvez por isso o meu coração se tenha enchido de versos, de personagens, de contos que desejam ser lidos para não serem esquecidos. Será que na voz da minha avó e no teclar do meu avô eu já era escritora?
